Além do Físico

"Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe vossa vã filosofia"

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Ontem uma leitora do Além do Físico me perguntou se seria possível conciliar Espiritismo e Bruxaria, levando a essa encruzilhada que muitos praticantes encontram ao longo do Caminho - escolher apenas uma religião, crença ou prática e manter-se fiel à ela ou tentar experimentar todas as rotas possíveis simultaneamente...


Há algum tempo atrás eu seria taxativo e diria que é impossível. Ao longo da minha breve vivência na bruxaria, sempre via neófitos fazendo exatamente essa mesma pergunta aos Iniciados mais experientes e recebendo um grande e indiscutível NÃO.
Foi assim que decidi abraçar a Bruxaria de vez e deixar o Espiritismo, que havia sido uma boa base para mim até então, mas que não oferecia o que eu precisava. O mesmo aconteceu com uma Ordem da qual eu era membro e que, apesar de não ter fundamentos religiosos explícitos, me deixava desconfortável pelos pequenos atos e símbolos que carregavam intrinsecamente um teor religioso. Eu sentia que estava traindo os deuses e que o meu compromisso maior era com eles; então também a abandonei.
Assim, pratiquei a Bruxaria exclusivamente por dois anos e estava em casa... até o último inverno. Essa é a época do ano que eu mais gosto, mas que devido à aparente falta de movimento e ação físicos, traz à tona um monte de questionamentos espirituais, assim como foi também no inverno anterior. Quem acompanha o Além do Físico há mais tempo acompanhou essa fase, a qual eu chamava de "Ordálias Iniciáticas". É um termo utilizado no Ocultismo, na Bruxaria teria seu equivalente como a "Noite Negra da Alma", e na Kabbalah, o Abismo de Daath. Todos designam aquele momento em que o Iniciado, pensando ter alcançado a Iluminação, a plenitude de sua Caminhada, encontra um abismo e um dilema: pular dele, deixar para trás antigas convicções e falso moralismo e morrer ou dar meia volta e permanecer em seu porto seguro, sem arriscar. Em Ordens ocultas, esse processo é muito complexo e leva anos para acontecer, estou fazendo apenas um paralelo de uma situação semelhante, mas muito menos intensa.
Em minha "Noite Negra da Alma", eu senti um Vazio muito grande, uma falta de um não-sei-o-quê nos rituais, na minha prática pessoal. Percebi que estava no "modo automático" há muito tempo e que fazer rituais por fazer não satisfazia aos deuses e nem a mim. Então pulei do Abismo.


E renasci com uma consciência muito mais ampla e menos preconceituosa. Voltei a frequentar centros espíritas ocasionalmente, iniciei o curso prático de Apometria, onde comecei a desenvolver minha mediunidade, comecei a estudar Ocultismo com mais liberdade e até passei a utilizar um ritual que antes nunca teria aceitado praticar: o Ritual Menor do Pentagrama (RMP). É o ritual mais básico e conhecido na Magia, carregado de simbolismo que eu julgava como judaico-cristão, mas que agora vejo como arquétipos universais que podem ser acessados por todos.
Agora eu devo dizer como conciliar tudo isso de uma forma mais ou menos coerente, e não como uma salada mista confusa, tornando-se um "esquisotérico". O primeiro requisito é abrir seus horizontes conscienciais, despir-se de todos os preconceitos e de coisas que você ouviu falar que é errado. As pessoas tem a mania de dizer sempre "isso é errado, isto é certo!", no maniqueísmo que caracteriza a sociedade judaico-cristã em que vivemos. Preto ou branco, não há o cinza. Claro que há! Há maravilhosos e infinitos tons de cinza a serem explorados. Certo ou errado são conceitos absolutamente subjetivos, suscetíveis à análises parciais sob alguma ótica específica. A não ser que essa pessoa realmente passou pelo Abismo, e nem digo o pequeno Abismo que experimentei, mas aquele real experimentado em Ordens Iniciáticas, ela tem preconceitos e julgamentos falhos, como qualquer outro. Então, ouça seu coração, seu espírito e ali estará a SUA verdade.
O segundo requisito é saber interagir com as egrégoras de forma metódica e racional. Isso significa não misturar práticas ou crenças. Cada uma é coerente e verossímel em si mesma (pelo menos até certo ponto e não vou entrar no mérito das "religiões" da salvação), cada uma se liga ao Divino de forma distinta, mesmo que no caminho utilizem-se das mesmas energias e arquétipos, apenas com nomes e aparências diferentes. Assim, é preciso dedicar à cada dia uma prática e naquele momento esquecer de todas as outras. Vestir as roupas ou paramentos específicos, realizar as purificações de cada sistema, invocar os deuses de determinado panteão... são as formas de se conectar com uma egrégora. Para interagir com outra, é necessário despir-se da anterior, das vestes físicas e espirituais, e então fazer os procedimentos equivalentes naquele sistema.
Mesmo que Ogum, São Jorge, Ares, Marte, Hórus, etc. expressem a mesma energia masculina, marciana e ativa da Guerra e do Fogo, cada um está revestido das caracterizações culturais próprias e são contatados de maneira diferente.
Eu receava que, seguindo vários caminhos ao mesmo tempo, a Presença Oculta que me acompanha se distanciaria em reprovação. Mas pelo contrário, já pude constatar que uma das sacerdotisas que participam de meus rituais é a mesma guia que me assiste nos trabalhos apométricos.
O terceiro requisito é o estudo. Tão importante quanto os outros, ou até mais, o estudo é que possibilita a ampliação da consciência e o entendimento das correspondências mágicas entre arquétipos, símbolos e rituais, que é a chave para a conciliação harmônica de sistemas diferentes. Para tal, recomendo a Kabbalah Hermética, que tem foco principalmente na Árvore da Vida, um diagrama extremamente rico e versátil que pode explicar toda a vivência humana, seu inconsciente coletivo, suas religiões e deuses.
E por fim, faço uma ressalva. A coerência. Sejamos coerentes e admitamos que para tudo há um limite e no meu entender, não há meios possíveis de se conciliar religiões que claramente são opostas, como por exemplo, Evangelicalismo e Bruxaria. Defender o contrário é sofrer o inevitável choque de egrégoras e perturbações espirituais, além da instabilidade na fé pessoal. Assim, desejo sorte aos que passam pela mesma situação e a Benção dos Antigos!

Hudson

6 comentários:

fale mais e explique o que é a Kabbalah Hermética e a Árvore da Vida, por favor

Clap clap clap!
Concordo plenamente.
Depois que eu comecei a estudar o ocultismo de uma forma mais livre, meus rituais e minhas meditações voltaram a ser agradáveis e interessantes, além disso me trazer muito mais autoconhecimento. É só ter cuidado para não haver choque de egrégoras, como você disse.
E estudar a Árvore da Vida é maravilhoso *-*

Bem, todo mundo já ouviu falar de Cabala, pelo menos por causa da Madonna! A diferença entre a Cabala judaica e a Kabbalah Hermética é que esta última tem o seu foco no diagrama da Árvore da Vida, enquanto a outra estuda a fundo os textos cabalísticos e a gematria (numerologia sagrada, que pode revelar o significado de uma palavra a partir de uma codificação numérica).
A Kabbalah Hermética é bem abordada por ocultistas modernos, de forma sistemática e não-religiosa. Os aspectos mágicos são priorizados e todos os rituais podem ser decifrados a partir das 10 esferas do diagrama, as Sephirot. Eu sei pouco sobre Kabbalah, na verdade, tenho um conhecimento bem superficial ainda. O que aprendi até agora foi com os textos do site www.deldebbio.com.br, o Teoria da Conspiração, do Marcelo Del Debbio.
Para iniciar, recomendo essa palestra dele, que foi disponibilizada no YouTube:

Kabbalah e os Deuses de todas as religiões:
http://www.youtube.com/watch?v=nWWuoS8amPw

Acredito que vai despertar o fascínio inicial por ver tantas "coincidências" explicadas.

Sobre a cabala, também tem um livro que explica os caminhos da Árvore da Vida com uma linguagem pagã...
É A Cabala das Feiticeiras, da Ellen Cannon Reed.
Mas o TdC, do Del Debbio, é excelente. Dá pra entender muito bem por lá, mesmo começando do zero.

Análise brilhante do tema. Parabéns!

Adorei o texto, me fez sentir menos louca no meu modo de pensar. Era tudo o que eu precisava depois de tantos baldes de água fria que alguns bruxos (um tanto que ortodoxos) acabam jogando, sobre aqueles que tem uma maneira diferente de se mover na arte.

Obrigado por compartilhar essa sua experiência. E parabéns pelo blog.

Blessed Be

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O uso das técnicas, rituais e conhecimentos adquiridos no Além do Físico é de responsabilidade única e exclusivamente sua, caro leitor. Não me responsabilizo, em nenhum nível, pela má utilização de tais ferramentas mágicas e espirituais.

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Faço Psicologia na USP, tenho 22 anos, sou bruxo, magista e médium, sempre em busca das verdades espirituais. Encontro prazer imenso na leitura, que nos possibilita viajar através de dimensões, espaço e tempo num folhear de páginas.

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