Além do Físico

"Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe vossa vã filosofia"

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Para quem não leu meu post do ano passado, confira AQUI, onde há uma descrição dos costumes rituais, suas origens históricas e sugestões de ritual numa visão generalista. Este ano resolvi abordar o tema ritual dos irmãos gêmeos, aspectos do Deus Cornífero, o Rei do Azevinho e o Rei do Carvalho. Confira minha versão deste mito mais abaixo, sob a imagem do Deus.
Esse tema é trabalhado na Tradição Gardneriana, originalmente. Atualmente, outras tradições e bruxos solitários também aderiram ao mito. Desse modo, posto um trecho do livro "Wicca Gardneriana", de Mario Martinez:

"   Litha, ou Solstício de Verão, comemora-se entre os dias 21 e 23 de dezembro em nosso hemisfério. É o dia mais longo do ano e assinala o auge do poder do Sol e do Deus de Chifres, que, atingindo a maturidade, encontra-se na sua plenitude e felicidade. A Deusa encontra-se grávida, assumindo os atributos de Deusa Mãe. Talvez seja a época de maior alegria em toda a Roda, uma vez que vivemos na plenitude do poder e da abundância. Luz e calor trazem o pico de energia traduzido num ritual de fogo e de vida.
    Para todos os wiccanos, Litha representa a materialização de todas as esperanças. Todos os projetos e pretensões que haviam sido lançados desde a época do plantio começam a se tornar realidade. Notamos, desse modo, que o ritual de meio de Verão e um processo vigoroso de transição, no qual as realizações ainda não foram colhidas, mas estão quase maduras para tal. Como tempo de transição, percebemos que atingimos o ápice do ano, mas ao mesmo tempo entramos na fase de declínio, na qual a progressão natural é o início do ano decrescente que culminará no Solstício de Inverno.
   Na Tradição Gardneriana, essa fase de transição (tanto no solstício de Verão quanto no de Inverno) é celebrada através do mito do Rei do Carvalho e do Rei do Azevinho, tema esse que se tem mostrado uma constante em quase todas as religiões da antiguidade, tendo até mesmo sido incorporado no cristianismo. Para entendermos melhor esse simbolismo, dividimos a Roda do Ano em duas partes, sendo o rei do Carvalho o Deus do ano crescente que no Solstício de Verão cede seu lugar ao Rei do Azevinho, o deus do ano decrescente. Como vimos, é no ponto mais alto do Verão que se inicia o declínio ou o movimento natural em direção ao inverno.
   Nessa tradição ancestral, o Rei do Carvalho morre nas mãos do Rei do Azevinho, para renascer no Solstício de Inverno e substituí-lo nos ritos de Yule. Essa rivalidade entre os dois deuses gêmeos, que na realidade são aspectos do próprio Deus Cornífero, girava em torno do amor e das atenções da Deusa, em seu aspecto exuberante e sensual, quem preside à substituição do Rei do Carvalho por seu gêmeo sombrio, símbolo da decrepitude.
   Na Tradição Gardneriana, Litha possui o aspecto do ritual do fogo e da água, um representando o poder fertilizador encarnado no Deus, e o outro o poder a ser fertilizado, representado pelo Caldeirão de Ceridwen e pela Deusa. Como sabá solar, Litha era visto como um dos maiores festivais da Europa antiga. Alguns autores afirmam que a tradição dos ritos solares foi trazida para a Península Ibérica pelos árabes e mouros que lá se estabeleceram durante séculos. De qualquer maneira, era a época em que inúmeras fogueiras eram acesas por toda parte. O antigo costume de acender fogueiras no Solstício de Verão era muito comum no Marrocos e na Argélia. Essas fogueiras eram acesas nos pátios das casas, praças, ruas e nos campos, onde era encontrada grande variedade de ervas que produzia uma fumaça agradável, entre elas a arruda, tomilho, camomila, gerânio, etc. O costume local era passar pela fumaça das fogueiras, saltando-as sete vezes, já que se acreditava que elas tinham propriedades curativas e proporcionavam fertilidade. "

Baseado nisso, escrevi a minha própria versão do mito de Litha, romantizada é claro,  usando a minha liberdade poética, mas respeitando os limites da tradição. Espero que gostem!



Desde o início dos tempos, a Deusa da Lua e das Estrelas despertou amor e desejo no Deus Galhudo das Florestas. Assim como Ela se mostra de muitas maneiras, o Deus tem duas faces: o Rei do Carvalho e o Rei do Azevinho. Irmãos e rivais, em luta eterna pela atenção da Deusa.
Encontramo-nos no Solstício de Verão, o calor chega ao ápice, na máxima expressão de Vida na Terra. O Rei do Carvalho tem governado até então, na maré crescente do ano. A Deusa aprecia a abundância de vida e cores na Natureza, deseja em seu íntimo que sempre fosse assim. Mas Ela é a Senhora dos Mistérios da Vida, da Morte e do Renascimento; Ela sabe que os ciclos são essenciais para a evolução de todos os tipos de vida e a manutenção do equilíbrio natural. Assim sendo, Ela vai ao encontro do Rei do Carvalho, no interior da mais densa das florestas, onde carvalhos milenares imperam dominantes.
Uma onda de poder e emoção vibra quando se encontram, a familiaridade d’Aqueles que se amam mais do que é possível imaginar.
- Minha Amada Deusa! É o maior dos prazeres receber a sua visita! A que devo tamanha honra?
- Meu estimado companheiro, sabes que tão bem quanto eu o motivo de minha vinda. Preciso lembrá-lo de seu dever. Seu reinado se aproxima do fim, você precisa deixar o trono.
- Mas Minha Deusa, não vê como a floresta pulula de vida enquanto reino? Há alimento farto para todos os animais, eles se reproduzem e são felizes! Porque eu deveria deixar que tudo isso acabasse?
- A Vida se mantém em ciclos: Nascimento, Crescimento, Maturidade, Reprodução e Morte. A tua semente repousa em meu ventre, para garantir que você esteja vivo e forte para reinar no próximo ano. Se assim não fosse, você não existiria, e a Natureza adormeceria num sono eterno, sem jamais despertar.
- Mas juntos nós podemos fazer com que tudo isso dure para sempre. Imagine como seria fabuloso um mundo em que o amor e o prazer são os únicos sentimentos existentes, onde a dor da Morte nunca fosse sentida!
- Se assim fosse, outros espíritos nunca teriam a chance de experimentar a Vida, não haveria sentido para a reprodução, tudo se tornaria estático e desprovido de significado. Os Mistérios da Vida e da Morte devem ser experimentados por todos os meus filhos, pois esse é o caminho para chegarem até a mim.
As palavras da Deusa eram carregas de tamanha sabedoria e profundidade ancestrais que os olhos do Rei do Carvalho se encheram de lágrimas de compreensão.
- Tens razão, como sempre, Amada Deusa. Enfrento o meu Destino de frente e cumpro meu dever perante a Senhora. Que venha o meu rival!
Calmo, silencioso e taciturno, o Rei Azevinho surgiu entre as folhas. Seu olhar era firme, seus lábios cerrados pareciam esboçar um sorriso incompreensível, resistente, único.
O Rei do Carvalho se pôs de pé no mesmo instante. Saudaram-se cordialmente, pois apesar de serem rivais, eram irmãos e estavam cientes de seus deveres.
Deram início ao combate. Eles se igualavam em força e determinação. O Rei do Carvalho estava no auge do seu poder e seus galhos eram fortes e resistentes, mas o Rei do Azevinho esteve se preparando nos últimos seis meses, seus galhos eram finos, mas muito ágeis.
A luta se prolongou por algum tempo, pode ter sido minutos, ou exaustivas horas. Naquele bosque o tempo passava de um modo peculiar. De repente, num movimento fluido e rápido, o Rei Azevinho fere fatalmente o Rei Carvalho. Este cai, e é amparado pela Deusa.
Ela não chora, sente-se orgulhosa por seu filho e amante ter se sacrificado para manter a Vida. Mas seus olhos brilham marejados quando o espírito imortal do Deus parte para o Oeste, o Outro Mundo, onde aguardará até que esteja pronto para renascer como a Criança da Promessa.
Ela se levanta e olha para o Rei do Azevinho. Trocam um olhar intenso, em que se pode discernir reverência, admiração, comprometimento... e amor. Ele é face mais sombria de seu amado, mas com ele compartilha uma intensidade inexplicável, que não se traduz pelo contato físico apenas, mas pela sabedoria conquistada através de Eras.
Ele assume seu lugar no trono e Ela o coroa com uma guirlanda de azevinho, de folhas verdes viçosas e frutos escarlates. Dali a algum tempo, quando o Outono e o Inverno chegassem, aquelas seriam as únicas cores visíveis na floresta, além do branco majestoso da neve.
O Sol já havia se posto a Oeste e logo a Lua apareceria a Leste, então ela partiu para o céu, vestindo seu manto negro salpicado de estrelas e coroado pelo disco de prata. A Roda havia girado mais uma vez...

HUDSON

E aí, o que acharam? Postem nos comentários! Desejo um feliz Litha para todos, que a Deusa e o Deus os abençoem com os poderes do Sol! Para quem é nortista, tenha um bom Yule!

1 comentários:

Ola Hudison!Meu nome é Pedro Augusto,sou Wicca e gostaria muito de conversar com voce sobre bruxaria,rituais,cultos,feitiços,sabats e etc!
Tem algum jeito de nós nos encontrar ou conversar em redes sociais?
Moro em sao Sebastiao do Paraiso,só que vou ficar em Itamogi até 05/02/12
Grato!

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O uso das técnicas, rituais e conhecimentos adquiridos no Além do Físico é de responsabilidade única e exclusivamente sua, caro leitor. Não me responsabilizo, em nenhum nível, pela má utilização de tais ferramentas mágicas e espirituais.

Quem sou eu

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Faço Psicologia na USP, tenho 22 anos, sou bruxo, magista e médium, sempre em busca das verdades espirituais. Encontro prazer imenso na leitura, que nos possibilita viajar através de dimensões, espaço e tempo num folhear de páginas.

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