Além do Físico

"Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe vossa vã filosofia"

Pesquisar





Apesar de não constituir um conceito comum à todas as tradições de bruxaria, achei que este ensinamento é útil a todos os praticantes da Arte. O trecho a seguir foi extraído do livro "A Dança Cósmica das Feiticeiras", de Starhawk.



Na tradição das Fadas da Feitiçaria, a mente inconsciente é chamada de o self mais jovem; a mente consciente é chamada de self discursivo. Visto que eles funcionam através de diferentes tipos de percepção, a comunicação entre os dois é difícil. É como se falassem línguas diferentes.
É o self mais jovem que diretamente experimenta o mundo, através da percepção holística do hemisfério direito. Sensações, emoções, energias essenciais, memória de imagens, intuição e percepção difusa são funções do self mais jovem. A sua compreensão verbal é limitada; ele se comunica através de imagens, emoções, sensações, sonhos, visões e sintomas físicos. A psicanálise clássica foi desenvolvida a partir das tentativas de interpretar o discurso do self mais jovem. A Feitiçaria não só interpreta mas ensina como devemos nos comunicar com o self mais jovem.
O self discursivo organiza as impressões do self mais jovem, nomeia-as e as classifica em sistemas. Como seu nome implica, ele funciona através da consciência analítica e verbal do hemisfério esquerdo. Nele também está contido o conjunto de normas verbalmente compreendidas que nos estimulam a fazer julgamentos sobre o que é certo e errado, O self discursivo comunica-se através de palavras, conceitos abstratos e números.
Na tradição das fadas, um terceiro self é reconhecido: o self profundo ou self deus, que não encontra correspondência adequada em nenhum conceito psicológico. O self profundo é o divino dentro de nós, a essência máxima e original, o espírito que existe além do tempo, espaço e matéria. É nosso nível mais profundo de sabedoria e compaixão e é concebido como masculino e feminino, dois sentidos de consciência unidos como um. Ele é, com frequência, simbolizado como duas espirais unidas ou como o sinal da infinidade, oito deitado. Na tradição das fadas, é chamado de Dian Y Glas, o Deus Azul. Azul simboliza o espírito; dizia-se que o self profundo aparecia azul quando psiquicamente visto". Os pictos pintavam-se de azul com anil, segundo nossas tradições, a fim de se identificarem com o self profundo. "Dian" está relacionado tanto a Diana quanto a Tana, o nome das fadas para a Deusa; também a Janicot, nome basco para o Deus da Força e aos nomes de batismo João e Joana, que Margaret Murray documenta como sendo populares em famílias de bruxos.
No judaísmo esotérico da cabala, o self profundo é conhecido como Neshamah, da raiz shmh, "escutar ou ouvir": Neshamah é Aquela Que Ouve, o espírito que nos inspira e guia. No ocultismo moderno, o self profundo frequentemente aparece como o guia do espírito, às vezes de maneira dual, como no relato de John C. Lilly suas experiências com LSD em um depósito
isolado, onde declara ter encontrado dois seres prestativos: "Eles dizem que são meus guardiões, que já haviam estado comigo antes em momentos críticos e que, na verdade, eles estão comigo sempre, mas que normalmente eu não me encontro em situação de percebê-los. Estou em condições para percebê-los quando próximo à morte do corpo. Nesse estado o tempo não existe. Há uma percepção imediata do passa, presente e futuro, como se todos fizessem parte do momento presente.
Lilly descreve a percepção holística do hemisfério direito, associada ao self mais jovem. A tradição das fadas ensina que o self , profundo está ligado ao self mais jovem e não diretamente associado ao self discursivo. Felizmente, não é necessário que estejamos quase mortos para percebermos o self profundo, uma vez que tenhamos aprendido o truque da comunicação. Não é a mente consciente, com os seus conceitos abstratos, que se comunica com o divino; é a mente inconsciente, o self mais jovem que responde somente às imagens,
desenhos, sensações e percepções. Para nos comunicarmos com o self profundo, a Deusa/Deus Dentro de Nós, recorremos aos símbolos, à arte, poesia, música, mito e aos atos rituais que traduzem conceitos abstratos para uma linguagem do inconsciente.
O self mais jovem - pode ser tão teimoso e obstinado quanto a mais impertinente das crianças aos três anos de idade - não se impressiona pelas palavras. Incrédulo como se diz dos naturais do ,Missouri, ele quer ser mostrado. Para despertar o seu interesse, devemos seduzi-lo com bonitas imagens e sensações prazerosas, como ,se fôssemos levá-lo para jantar e dançar. Somente deste modo o self mais profundo pode ser alcançado. Por essa razão, verdades religiosas não têm sido expressadas, através dos tempos, como fórmulas matemáticas, mas na arte, música, dança, teatro, poesia, narrativas e rituais. Como afirma Robert Graves: "Os princípios religiosos, em uma sociedade saudável, são mais bem executados por tambores, luar, jejum, dança, máscaras, flores, possessão divina. "
A Feitiçaria não possui um livro sagrado. Seu compromisso não é com o verbo do evangelho de João, mas com o poder da ação simbólica que revela a percepção da luz das estrelas do self mais jovem e abre livre fluxo de comunicação entre os três selves de uma só vez. Os mitos e narrativas que nos foram passados não são dogmas para serem compreendidos literalmente,
do mesmo modo que não devemos tomar literalmente a declaração "meu amor é como uma rosa vermelha". Eles são poesia, não teologia, destinados a se comunicarem com o self jovem, conforme as palavras de Joseph Campbell, “a tocar e estimular centros vitais que estão além do alcance dos vocabulários da razão e coerção".
Aspectos dos rituais de bruxaria podem, por vezes, parecer absurdos a pessoas muito sérias, que falham em perceber que o objetivo do ritual é o self mais jovem. O senso de humor, de divertimento, são frequentemente a chave para desencadear os estados mais profundos da consciência. Parte do "preço da liberdade", portanto, 'é a disposição para se divertir, libertarmo-nos de nossa dignidade de adultos, parecermos tolos, de rir por nada. A criança faz de conta que ela é uma rainha; sua cadeira transforma-se em um trono. Uma feiticeira faz de conta que a sua vara tem poderes mágicos e ela torna-se um canal de energia.
O equilíbrio, obviamente, é necessário. Há uma diferença entre magia e psicose e essa diferença está em manter a capacidade de recuar, pela vontade, para a consciência comum, de voltar à percepção, como costumava afirmar meu professor de programa de saúde no curso secundário, no auge da era psicodélica: "Realidade é quando você pula do telhado e quebra a perna." As drogas podem proporcionar a percepção holística do self mais jovem, mas muitas vezes à custa do julgamento de sobrevivência do self discursivo: se ''brincamos" de voar no corpo, podemos despedaçar o fêmur. Todavia, a percepção treinada não se desentende com a realidade comum; ela vai mais além, através do espírito, e ganha intuições e percepções que podem ser, posteriormente, comprovados pelo self discursivo.
 Há muito mais a explorar sobre este assunto. Os três "selves" têm correlação com os chakras, localização no corpo denso e sutil, emanam energias distintas e podem ser acessados por diferentes métodos. São reconhecidos por outras linhas de espiritualidade, especialmente na Magia Huna; tendo diversos nomes. Isso fica para um possível futuro post.

1 comentários:

Indico um bom livro que irá complementar este texto de grande profundidade. O livro de Joseph Morphy, chamado: "O poder do subconsciente" que na minha opinião é um grande livro para entender este mecanismo.

Paz!

http://cristianismomistico.blogspot.com/

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Advertência

O uso das técnicas, rituais e conhecimentos adquiridos no Além do Físico é de responsabilidade única e exclusivamente sua, caro leitor. Não me responsabilizo, em nenhum nível, pela má utilização de tais ferramentas mágicas e espirituais.

Quem sou eu

Minha foto
Faço Psicologia na USP, tenho 22 anos, sou bruxo, magista e médium, sempre em busca das verdades espirituais. Encontro prazer imenso na leitura, que nos possibilita viajar através de dimensões, espaço e tempo num folhear de páginas.

Postagens populares

Seguidores

Visitas

Qual a sua relação com o Mundo Não-Físico?

Google Analytics Alternative